Diálogos imaginários
Luis Fernando Verissimo
- Antes de mais nada - diz Osama bin Laden - temos que estabelecer uma coisa. Quem de vocês é o verdadeiro Saddam Hussein?
- Por quê? - pergunta Saddam Hussein, ou um dos seus sósias.
- Porque vocês todos não podem ficar aqui. Este esconderijo mal dá para mim. Só pode ficar o verdadeiro Saddam Hussein. Os outros seis vão ter que se esconder em outro lugar. Ou mudar de cara.
Os Saddans se entreolham. Pode ser um truque de Osama, que, todos sabem, nunca foi muito com a cara deles e um dia chamou Saddam Hussein de "infiel pulguento". Osama pode estar planejando passar o verdadeiro Saddam Hussein na cimitarra. Finalmente, um dos Saddans aponta para outro e diz:
- Eu sou aquele ali.
O outro reage:
- Eu, não. Ele é ele.
E aponta para outro. Os sete Saddans se apontam mutuamente.
- É ele! É ele!
- Chega! - grita Osama. - Está bem. Podem ficar os sete. Mas só o verdadeiro dorme no sofá. Os outros dormem no chão.
Mais hesitação e olhares. Na cabeça de todos os Saddans passa o mesmo pensamento. Osama caminhando, no meio da noite, com uma adaga na mão, na direção do Saddam que dorme no sofá, cuidando para não pisar nos Saddans que dormem no chão. Levantando a adaga e...
- Todo o mundo dorme no chão - determina o Saddam.
- Outra coisa - diz Osama. - Todos vão ter que ajudar na despesa do esconderijo.
- OK - dizem todos.
- E ajudar na faxina.
- Eu, Saddam Hussein, fazendo faxina?! - protesta Saddam. Em seguida se dá conta de que se entregou e tenta disfarçar, apontando para um sósia: - Quero dizer, ele, Saddam Hussein, fazendo faxina?!
Mas um sorriso malicioso aparece no rosto de Osama, que já sabe quem é o verdadeiro Saddam Hussein. Agora é só cuidar para não embaralhar o verdadeiro com os outros, pensa Osama. E vai afiar a cimitarra.
Saddam Hussein, na última câmara subterrânea do seu último castelo em Bagdá, com as tropas americanas já entrando na cidade, recebe a visita de... George W. Bush!
- Bush! Você?!
- Vim lhe fazer um favor, Saddam. Tome.
Bush entrega um cartão a Saddam.
- Como você entrou aqui?
- Não interessa. Trago a sua salvação. Olhe o cartão.
- Não estou entendendo. Você, George Bush, está aqui para me salvar?
- Eu não sou George Bush, Saddam. Sou Osama bin Laden.
- Osama bin... Mas é a cara do Bush! Até as orelhas!
- Eu sei, eu sei. Olhe o cartão.
Saddam olha o cartão, onde há um nome. Osama explica:
- É o meu cirurgião plástico.
Passam-se semanas, meses, e ninguém encontra Saddam Hussein. O exército americano, a CIA, o FBI caçam Saddam Hussein por todo o território iraquiano e nada. Nem sinal de Saddam Hussein. Um dia surge a notícia de que alguém, num pequeno vilarejo ao norte de Bagdá, encomendou torneiras de ouro. A encomenda é suspeita porque o vilarejo é pobre, muito pobre. Ninguém no vilarejo tem condições de comprar torneiras, quanto mais de ouro. A coisa fica mais suspeita ainda quando descobrem que as torneiras de ouro são para uma humilde casa de barro na zona mais pobre do pobre vilarejo. Os americanos resolvem investigar. Uma tropa do exército cerca a casa e quando as torneiras de ouro são entregues na porta, a tropa entra junto - e encontra o Saddam Hussein. Uma família do lugar o acolheu, em troca de uma recompensa, e Saddam tem um pequeno quarto com um modesto banheiro nos fundos da casa, que ocupa desde que fugiu de Bagdá.
Enquanto Saddam está sendo algemado, o chefe da família comenta:
- Eu avisei que ia dar galho. Eu disse que iam desconfiar. Torneiras de ouro para o banheiro... Mas você insistiu.
Saddam dá de ombros. Diz:
- Quando a gente se acostuma com alguma coisa...
- Obrigado, Deus, pela vitória - diz George Bush.
- Tudo bem - diz Deus.
- Não, obrigado mesmo. Nós não teríamos conseguido sem o Senhor.
- Pode deixar.
- O senhor atendeu às minhas preces.
- Certo, certo. E olhe que tive que desprezar as preces de gente de peso, como o papa.
- Eu sei, e estou eternamente grato. Agora, tem uma coisa...
- O quê?
- O senhor não poderia, já que está aí em cima, com uma visão privilegiada que nós não temos, nos dar uma dica sobre onde estão as armas de destruição em massa do Iraque, e...
- Epa. Alto lá. Uma mãozinha, tudo bem. Mas espionagem não!
Domingo, 27 de abril de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.